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Alexandre Martins Fontes

Alexandre Martins Fontes – diretor executivo da WMF Martins Fontes

 

Boa tarde, Alexandre. Muito obrigada por nos receber hoje. Como você já sabe, esta entrevista será publicada no Portal Editorial Espanhol, o guia on-line de obras de autores espanhóis e agentes literários com direitos de tradução no Brasil. O objetivo do portal é encontrar editoras interessadas na compra dos direitos autorais destas obras. Na web, além das resenhas literárias dos títulos selecionados, o senhor poderá encontrar também o artigo “Encontro de mercados e culturas” de Bernardo Gurbanov.

1 - Segundo a informação da Alice Web, site do governo brasileiro de estatísticas de comércio exterior, entre 2014 e 2015 as importações brasileiras de livros de leitura espanhóis caíram de 19% para 29% entre 2015 e 2016. Como o senhor avalia a situação atual da literatura de língua espanhola e a sua inclusão no Brasil?

Esses números, na verdade, representam mais a crise brasileira que afeta todos os setores e sobre tudo o setor literário. Tem mais a ver com essa crise do que com a importância e o interesse pela literatura espanhola.

Falo isso pela experiência, nossa livraria é uma livraria onde você encontra todas as áreas de conhecimento humano. Temos livros nacionais e importados italianos, franceses, americanos, espanhóis... Nesse momento em que você tem essa combinação de uma crise econômica e política, que afeta a todos, entre as consequências, você tem uma desvalorização da moeda brasileira. Aquelas livrarias que tradicionalmente importam livros desses países – e a Espanha é definitivamente um país importante para o segmento –, estão cortando um pouco as importações porque elas representam um risco no sentido de que os livros importados não podem ser consignados. Então é uma compra firme, e se eu não vendo é um investimento que fica parado. Num momento que você tem uma queda das compras devido à diminuição do poder aquisitivo no Brasil, somada à desvalorização da moeda, que significa que o livro vai ficar mais caro para o consumidor final, as empresas estão mais apreensivas em relação aos riscos que elas podem correr, e uma das coisas que fazem é continuar trabalhando com os livros nacionais e trabalhar menos com os livros importados. Eu falo assim porque nós vivemos isso em nossa livraria.

Como livreiro, eu entendo que uma boa livraria, entre tantas outras coisas, tem que ter um acervo o mais rico possível e não deve ser só de livros nacionais, sobre tudo numa cidade como São Paulo, mas deve ter também livros estrangeiros. Eu diria, muito rapidamente, que o primeiro país que vai dentro de uma hierarquia de importância para o mercado brasileiro teoricamente seriam as edições portuguesas, mas, hoje, a indústria brasileira é maior e mais forte do que a portuguesa e não são muitos os livros publicados em Portugal que precisam ser importados para o Brasil. As importações de livros portugueses caíram muitíssimo porque se publica mais aqui do que em Portugal e porque o que se publica em Portugal se publica invariavelmente aqui no Brasil. O livro espanhol, nesta hierarquia de importância, estaria em segundo lugar, pois, para quem fala português, ler um livro em espanhol é muito mais simples do que inglês, alemão, francês ou mesmo italiano. Ao contrário do que falei do português, na Espanha existe uma indústria editorial riquíssima, tem uma produção editorial muito importante e eu diria que o livro espanhol sempre teve uma importância no mercado brasileiro por conta da proximidade do idioma e por conta da riqueza da indústria editorial espanhola. Ou seja, tem muita coisa que é publicada em espanhol e não é publicada em português, sejam originais espanhóis ou obras traduzidas ao espanhol, mas que você não pode encontrar a edição em português. Há 10 ou 20 anos você entraria em uma bibliografia de qualquer universidade brasileira e ficaria impressionado com a quantidade de livros em língua espanhola, que eram recomendados como livros de leitura porque representavam livros que simplesmente não eram publicados no Brasil. Hoje, claro, os grandes clássicos e livros mais importantes já se encontram publicados em português, então essa importância da literatura espanhola em espanhol no mercado brasileiro também caiu, mas estou falando de um analises dos últimos 30-40 anos.

De qualquer maneira, eu diria que o livro espanhol ainda tem um mercado potencial aqui no Brasil. Posso dar uns exemplos como importador de livros espanhóis: São Paulo é uma cidade muito grande e a mais rica do país, tem milhões de habitantes. Numa cidade desse tamanho você encontra mercado para tudo, como espanhóis que têm um interesse em comprar o livro original em espanhol e também brasileiros que têm interesse em conhecer o idioma e que querem ter a oportunidade de ler o livro no idioma original quando se trata de livros espanhóis. Como livreiro, para nós é importante ter livros vendáveis. Esses livros são os grandes clássicos da literatura, psicologia, arquitetura, filosofia... grandes obras em geral, que têm venda garantida, mesmo que eles não sejam best-sellers, eles são bom-sellers, eles vendem sempre. Quando se trata de autores espanhóis, eu diria que uma boa livraria deveria fazer um grande esforço por ter os clássicos na língua original. Uma editora espanhola que tem uma forte presença no Brasil e que hoje ainda esta no Brasil é a Gustavo Gili, especializada em livros de arte, design, arquitetura... Tem grandes clássicos publicados no seu catálogo, e esses livros sempre tiveram mercado aqui. Os livros mais novos são sempre uma incógnita e os riscos maiores. Se o livro é um best-seller na Espanha ou em qualquer outro país, existe sempre um interesse potencial também num país como Brasil, mas estamos falando de livros com interesse comercial, ficção e não ficção (psicologia, cozinha, autoajuda...), sabemos que, infelizmente, esse mercado está cada vez mais dominado pelo mercado da língua inglesa. Os grandes best-sellers mundiais são produzidos normalmente nos EUA ou na Inglaterra, mesmo de ficção como não ficção. É mais fácil você encontrar esses best-sellers em inglês do que em espanhol. Falando como editor, e como todos os editores brasileiros, estamos preocupados e atentos à produção americana e inglesa, mas como editor procuro ir atrás de outros mercados. Por exemplo, quando vou para uma feira como a de Bologna, que é uma feira internacional de livros infantis e juvenis, eu prefiro estar em contato com as editoras espanholas, italianas, francesas, japonesas... porque você vai encontrar obras muito interessantes e que a mídia brasileira não está prestando tanta atenção. Esse é o grande desafio, não só da Espanha, mas de todos os periféricos (que não são Inglaterra ou América). Quando eu vejo um livro espanhol publicado nos EUA ou Inglaterra fico muito interessado, porque é difícil os EUA publicarem literatura estrangeira. Se você consegue ser traduzido para o inglês é, com certeza, um produto interessante para o mercado brasileiro também.

2 - Segundo o artigo do Sr. Gurbanov, a Espanha é o quinto produtor de livros da Europa e oitavo do mundo e tem registrado um crescente nível de concentração na oferta: 12 editoras privadas publicaram mais de 700 títulos e 1.460 editoras publicaram quatro ou menos títulos ao ano. Então, como o Senhor vê o panorama editorial brasileiro atual? Tem mudado nos últimos anos?

Eu acho que essa concentração é mais forte na Espanha. Nós temos, e eu diria que estamos caminhando para essa realidade, ou seja, uma concentração na mão de uns poucos players, mas diria que o Brasil ainda é um país mais democrático nesse ponto de vista. Eu posso citar aqui dezenas de grandes editoras de tamanho similar; isso é: não temos essa concentração tão grande como na Espanha. Eu diria, aos meus olhos, que o grau de desenvolvimento do mercado brasileiro está muito abaixo do mercado espanhol. A indústria editorial espanhola é muito mais rica que a indústria editorial brasileira, por uma série de razões, entre outras, porque a Espanha tem como mercado toda a América Latina, onde cada vez é mais difícil encontrar editoras de capital nacional. Por exemplo: você já não tem mais editoras de capital argentino na Argentina, todas as editoras são editoras de capital espanhol. Mesmo aquelas que foram fundadas na Argentina, como a caso de Paidos, já são hoje parte de grupos espanhóis. Isso no Brasil não acontece. A maioria das editoras brasileiras é editora de capital brasileiro, de famílias brasileiras. As editoras espanholas também estão presentes aqui, caso da Planeta, da Santillana, SM... algumas grandes que já estão presentes no mercado brasileiro, mas eu diria que essencialmente as editoras brasileiras ainda são empresas de capital nacional.

3 - Continuando neste analises, qual é a perspectiva que o senhor vê para o setor? Tem uma visão mais negativa ou positiva deste futuro?

Eu acho que há uma tendência natural à concentração. Você vê isso acontecendo nos EUA, na Alemanha, obviamente na Espanha... e eu acho que isso vai acontecer no Brasil. Inclusive, eu diria que isso já está acontecendo no Brasil, motivo pelo qual falo que nós estamos num estágio anterior. Mas acho que a tendência é sim, não só vai acontecer isso em relação às editoras, como acontecerá isso em relação às livrarias. Você hoje, cada vez mais, tem um número menor de livrarias, cada vez mais na mão de poucos players. Eu lamento isso, acho que é inevitável, lamento mesmo.

4 - Como se pode ver no artigo do Sr. Gurbanov, dos 4.781 títulos traduzidos no Brasil no ano 2015, apenas 183 foram traduzidos do espanhol. Por que o senhor acha que acontece isto? Um dos motivos poderia ser a falta de imagem dos autores latinos e espanhóis?

Primeiro, eu me pergunto: será que esse número reflete de fato a realidade? Muito provavelmente, mas me surpreende. Eu tenderia a pensar que o percentual de originais espanhóis traduzidos no Brasil seja maior. Eu acho que o que está atrás disso é essa disputa da indústria de entretenimento no mundo, porque isso que estamos falando do Brasil vale para todo o mundo: França, Alemanha etc.. Se você vai para Alemanha e pega a lista dos best-sellers, vai encontrar muitos livros de autores ingleses e americanos. Na França, a mesma coisa. O Brasil não é diferente, está muito suscetível a essa pressão da indústria cultural: os filmes, as séries, a música... Quando se faz um livro adaptado de um filme, 90% do filme são dos EUA; se vai fazer um livro sobre música, a maior parte das bandas são bandas americanas e bandas inglesas, e por aí vai, os grandes best-sellers do mundo são americanos ou ingleses. Há um domínio absoluto da indústria da língua inglesa no mundo, inclusive na Espanha. Se você olha a lista da Espanha, os originais americanos, eu asseguro que representam a metade da lista ou pelo menos uma boa parte dela.

5 - Em sua opinião, que tipo de literatura, principalmente espanhola, teria hoje mais possibilidade no mercado brasileiro ou quais são os seguimentos mais vendidos para tradução do espanhol para o português?

O grupo Martins Fontes é essencialmente editor de livro de não ficção, muito de ciências humanas. Então publicamos essencialmente livros nas áreas de filosofia, direito, educação, psicologia, artes, arquitetura, livros universitários... Começamos a publicar nossos livros há mais de 40 anos. Nos anos 1990 nós resolvemos fazer um ensaio e publicar alguma coisa de ficção, ficção contemporânea, o que em inglês se chama literary fiction, que são menos comerciais e mais literários. E nós, como tínhamos muito contato com agentes literários espanhóis em Barcelona e Madri, lançamos essencialmente livros de autores espanhóis contemporâneos. Então lançamos no Brasil a Javier Marías, Pérez Reverte, Sampedro, Llamazares, vários autores contemporâneos espanhóis. Eu diria inclusive que fomos os primeiros a fazer isso. Infelizmente, logo percebemos que a ficção nunca foi a nossa vocação, nossa vocação era a não ficção. Nem existia um catálogo da Martins Fontes de ficção, começamos a desenvolver esse catálogo a partir dos anos 1990. Então, como não tínhamos uma tradição nessa área, e o mercado livreiro respeita muito até hoje o nosso catálogo mas não como editores de ficção e sim como de não ficção, nós enfrentamos vários problemas para colocar os livros de ficção no mercado. E entre eles, certamente, o fato de colocar autores pouco conhecidos no mercado brasileiro, autores espanhóis, quando a maioria dos autores eram ingleses ou americanos e, em segundo lugar, franceses, nos anos 1990. Nós fizemos isso durante uns oito anos, e no começo dos anos 2000 paramos de fazer esse trabalho. Estou contando isso porque nós temos essa experiência de ter tentado introduzir no mercado brasileiro grandes autores de ficção de origem espanhola, e nós vivemos essa dificuldade. Paramos de fazer, mas imagino que as editoras que continuam publicando devem continuar enfrentando essas dificuldades, que as vendas seguem sendo restritas, pequenas. Primeiro porque Brasil é um país continental com 200 milhões de habitantes, mas é um país onde a maior parte da população não lê e não compra livros, então você está falando de um mercado de livros muito pequeno, infelizmente, e que está disputado por editoras do mundo todo e escritores do mundo todo, e mais uma vez a Inglaterra e os EUA ocupam esses espaços. Eu acredito que até hoje isso não seja muito simples. Agora, falando como editor aqui, mais uma vez, somos editores de não ficção, e tentamos publicar livros que não são necessariamente best-sellers, mas que são potencialmente bom-sellers, ou seja, não são necessariamente clássicos, mas que têm um potencial de se tornarem clássicos. Isso não vale só para a produção espanhola, mas também para a alemã, inglesa, americana... Quero dizer, estou sempre procurando obras e livros que a meu ver tenham esse potencial de vender sempre durante muitos anos mesmo que lentamente, mas que encontre um mercado perene pela importância do autor ou a importância da obra. Agora, é obvio que na Espanha vocês têm também autores de grande público, autores comerciais, que vendem muito bem na Espanha, e a possiblidade de que esses autores tenham sucesso no Brasil é grande, não é uma garantia, mas é natural que isso aconteça. Por exemplo, um livro espanhol que publicamos há mais de 20 anos e que ainda vende muito bem, que é um livro de um médico espanhol, Duérmete, niño que publicamos como Nana, nenê, é um livro que vende muitíssimo na Espanha, é um best-seller, e no Brasil vende muito bem há mais de 20 anos. Esse é um típico exemplo de livro de não ficção, para grande público, não é especializado, é para pais e que têm um bebê com dificuldades de dormir. Eu não tenho a menor dúvida de que livros com essas características têm um potencial no mercado brasileiro. O importante é que as editoras e os agentes literários estejam mostrando isso para as editoras brasileiras, coisa que eles já fazem. Por uma série de razões existe uma concentração de grandes agências literárias na Espanha que cuidam da venda dos direitos autorais dos livros espanhóis para a América Latina, inclusive para o Brasil. Eu trabalho com muitas agências espanholas muito mais na Espanha do que, por exemplo, na Itália ou Portugal ou mesmo na Alemanha. Essa proximidade cultural de Brasil e Espanha faz que as agências literárias estejam muito próximas a nós. Vai ser muito difícil você encontrar um editor brasileiro que não tenha contato com as principais agências espanholas, que estão principalmente em Madri ou em Barcelona.

Então, eu diria para você, falando de uma maneira teórica, que a produção editorial espanhola é, sim, divulgada, essas agências estão dia a dia mostrando para nós, editores brasileiros, que esses livros existem, que eles estão sendo publicados e que mereceriam ser publicados no Brasil. Esse trabalho é feito, não é uma coisa que você diga: “Que pena que isso não é feito, porque se fosse feito os resultados seriam muito melhores!”. Não! Eu posso mostrar que esse trabalho é feito: recebo e-mails semanalmente dessas agências literárias expondo produtos espanhóis para o Brasil. Eu diria que o trabalho editorial é feito por pessoas: pelo autor, editor, agente... Então essas relações pessoais dentro do mundo editorial são muito importantes. Agora, com a crise, nós demos uma parada, não estamos comprando nada da Espanha nem de qualquer outro país, ou muito pouco comparado com anos atrás; mas o que fizemos nesses últimos anos foi comprar vários direitos de livros e ainda temos programado o lançamento de vários títulos de uma editora catalã, La Galera, e aí estou falando de livros infantis e juvenis, nós temos uma série de livros que já lançamos e que vamos lançar que são originais de autores catalães publicados por essa editora. Ou seja, essa parceria existe, claro que temos que trabalhar sempre para que ela aumente ainda mais, mas existe de fato uma relação que se estabelece desde há muitos anos entre as editorias brasileiras e o mercado espanhol.

6 - Normalmente, quando as editoras brasileiras compram o direito autoral de uma obra, como se dá o processo de negociação?

Conheço o processo da nossa editora: eu diria que a maior parte do contrato que nós temos com editoras espanholas se dá através de agentes literários. O agente literário, que representa o autor ou a editora espanhola, faz a intermediação entre o autor e a editora espanhola e a editora brasileira. Eu diria que isso vale, hoje, pensando assim rapidamente, para o 90% dos contratos. Agora, também temos contratos feitos diretamente com as próprias editoras, mas não me lembro de nenhum contrato que tenhamos feito com o próprio autor, mas pode acontecer também. Eu diria que em um mercado mais sofisticado e profissional, o certo é fazer o contrato através de um agente literário. E é assim, certamente, que acontece hoje no nosso caso.

7 - O senhor considera que as obras espanholas, quando têm seus direitos autorais vendidos para o mercado brasileiro necessitam de muita modificação? E quando precisam desta modificação a negociação é tranquila com a empresa espanhola ou são muito exigentes e resistentes às modificações? Por exemplo, um dos livros selecionados para o portal, Juvenicidio, do autor José Manuel Valenzuela, precisará de modificação para o mercado brasileiro, já que se trata de um jogo de palavras que dificulta o entendimento e o sentido no português.

Seguindo no mesmo assunto, é normal modificar a obra para o novo mercado ou as editoras tentam manter as características do mercado de origem? Por exemplo: a capa, o título, as imagens...

Eu tenho uma brincadeira, um jogo de palavras, que fala: tradutor-traidor. Em italiano: tradutori-traditori. Quer dizer, traduzir é uma arte. Você aí está dando um exemplo da tradução de um titulo, mas temos muita experiência com tradução de livros inteiros porque a maior parte dos nossos livros são traduzidos (seja do espanhol, francês, inglês ou alemão). A tradução de fato não é brincadeira. E quando falamos em tradução, não estamos falando simplesmente da tradução do idioma original para outro idioma, mas você fala em alguns casos de adaptações que se fazem necessárias porque o livro aborda especificamente um assunto francês, espanhol ou americano que, dependendo do livro, merece que se faça uma adaptação para que o exemplo seja um exemplo brasileiro, digamos. Nós, como trabalhamos muito com grandes clássicos, muito raramente mexemos na estrutura do livro. Ou seja, nós fazemos a tradução ipsis litteris, como foi inscrita no original, tratando de respeitar ao máximo. Mas diria que um livro de grande público, mais comercial, que se quer comunicar com o máximo de pessoas, que esse livro está mais sujeito a essa adaptação editorial. Essa adaptação só pode acontecer com o aval do autor original ou de quem representa o autor original. Nós, por exemplo, acabamos de publicar um livro de uma autora americana (mais uma autora americana) sobre saúde alimentar, que no original devia ter no final do livro pelo menos umas 50 páginas de citações, bibliografia, obras, trabalhos usados para pesquisa etc., mas chegamos à conclusão que não fazia sentido no Brasil, num país que é tão sensível ao preço do produto, deixar 50 páginas de um livro só com citações de obras americanas e papers americanos e matérias publicadas nos EUA. Isso não interessa ao público brasileiro. Então, criamos uma versão on-line para a pessoa que deseja ter acesso a essa informação, acessar tais citações, mas não através do livro físico. Nesse caso, você lança ao mercado um livro mais barato. Nós pedimos autorização para a autora e ela entendeu e autorizou. Isso é um exemplo de uma coisa recente que eu lembrei agora, mas acontece e acontecerá sempre. Toda vez que o livro for traduzido, nos vários sentidos da palavra, é para outro mercado. Nós lançamos agora um original alemão, um livro que fala do intestino, um livro médico, que faz uma introdução da importância do intestino; e em português o titulo ficou “Discreto charme do intestino”. Esse livro, por exemplo, eu sei que nos EUA foi muito editado, no sentido de modificado. Eles fizeram modificações muito mais fortes do que nós fizemos na versão brasileira. Cada país trabalha de uma maneira diferente.

8 - Qual é o ponto de vista do senhor sobre o interesse dos leitores brasileiros pela literatura e cultura espanhola? Acredita que a demanda tenderá a aumentar?

Eu acho que talvez possamos dizer sem errar que a indústria editorial espanhola já teve uma importância maior no Brasil do que tem hoje. Falo da indústria como um todo, não necessariamente de livros espanhóis de autores espanhóis. Eu já disse que se você pegar uma bibliografia de um curso da universidade de São Paulo, por exemplo, um curso da faculdade de Filosofia da USP, de 30 ou 40 anos atrás, você encontrará muitos e muitos títulos dessa bibliografia em espanhol, porque, mais uma vez, esse livro não era publicado no Brasil e, então, se você quisesse ler, o idioma mais próximo ra o espanhol. A indústria editorial espanhola era muito mais importante do que a portuguesa e do que a brasileira, e esses livros eram todos indicados em espanhol. Hoje, praticamente isso não existe mais, os grandes clássicos, as grandes obras, os grandes textos são todos publicados em português. Então, desse ponto de vista, eu não tenho a menor dúvida de que a presença da indústria editorial espanhola é menor. Esse é um lado da questão. O outro, contradizendo o que acabo de falar, é que o mundo vai se abrindo mais para outras culturas, apesar de termos aí o poder e a presença da indústria cultural da língua inglesa, mas o mundo vai se abrindo. Eu mesmo acabo de dizer que vou à feira da Bologna que tem editoras espanholas, japonesas, holandesas... e trago esses livros para o Brasil, acho que não somos os únicos a fazer isso. Eu vejo, sim, um interesse e tendência de se publicar mais do que simplesmente o óbvio; o que eu quero dizer com óbvio seriam autores comerciais, bem-sucedidos na Inglaterra e nos EUA. Não estou falando só sobre a Espanha, mas sobre os outros países de uma maneira geral, como a literatura árabe, por exemplo. Acho que o mundo hoje está mais aberto para outros mundos e culturas.

O que vai acontecer de aqui para a frente, esse exercício de futurologia, parece difícil de fazer. O que eu posso dizer com a nossa experiência é que nós temos, hoje, por exemplo, uma parceria com uma editora espanhola que está em Barcelona, mas que tem origem em Buenos Aires, logo também tem um pé na Argentina, que publica livros essencialmente juvenis ilustrados ou livros ilustrados para adultos, que é uma belíssima editora chamada Zorro Rojo, e nós temos uma parceria com eles e abrimos uma editora aqui no Brasil chamada livros da Raposa Vermelha, que é uma tradução. A parceria se dá da seguinte maneira: nós fazemos uma seleção do melhor que eles publicam em espanhol e publicamos em português em parceria com eles. Ou seja, não é que a Martins Fontes compre os direitos sozinha, não, os livros que se publicam no Brasil saem com selo Raposa Vermelha, e nós, junto com a Zorro Rojo, dividimos os custos de produção, os custos da distribuição, os lucros, se houverem... Isso, por exemplo, é uma coisa que nós passamos a fazer há pouco tempo, quatro ou cinco anos atrás... Que, obviamente, há 10 ou 20 anos não se fazia. Então eu acredito que esse tipo de pareceria acontecerá cada vez mais. Agora mesmo estou falando sobre fazer uma coisa parecida com uma editora portuguesa. Então, acredito que esse tipo de parceria é uma coisa que tende a acontecer cada vez mais.

9 - Na sua visão como editorial e livraria, existe um maior interesse nas obras da Espanha com respeito ao idioma espanhol no mercado brasileiro? Isto é, o mercado brasileiro tende mais a comprar autores espanhóis que latino-americanos por causa da origem da língua?

Conforme já falei há pouco, a leitura que eu faço, para começar, é que você vai ter dificuldades de encontrar editoras latino-americanas de capital puramente latino-americano. As espanholas estão presentes em toda a indústria editorial da América Latina, e eu acho que naturalmente a força da indústria editorial espanhola vai se impondo. Na verdade, já acontece e eu vejo isso acontecendo cada vez mais. Então você pode até publicar autores latino-americanos no Brasil, mas esse latino-americano a gente publica com contratos feitos através de agentes espanhóis. Vou dar um exemplo: eu posso citar aqui algumas dezenas de agentes literários espanhóis com os quais nós trabalhamos; e agora, neste momento, não consigo me lembrar de nenhum agente literário latino-americano e só isso já mostra a realidade. Agora estou me lembrando de alguém em Buenos Aires, mas a realidade é que essencialmente adquirimos direitos autorais através da Espanha, mesmo quando se trata de autores latino-americanos. Para nós, os brasileiros, a língua é a mesma. Vocês podem entender uma diferença, mas um livro publicado na Argentina, no Chile, na Colômbia, vai ter que ser traduzido, e é essencialmente o mesmo idioma, certo? O que você poderia falar, não por conta da língua, mas poderia falar por conta da proximidade geográfica ou cultural, aí sim faria algum sentido, mas por causa da língua não. A língua é a mesma para nós.

10 - Com a sua experiência, o que se faz atraente para uma editora brasileira comprar direitos autorais de obras espanholas? O que lhe faz identificar um autor espanhol que seja interessante?

Eu sou absolutamente um grande admirador da indústria editorial espanhola e da cultura espanhola em geral. A indústria editorial espanhola é superimportante, a cultura espanhola e particularmente a cultura literária espanhola é da maior importância não só no Brasil, mas em todo o mundo. Um editor tem que necessariamente dar atenção ao que se produz na Espanha. Não só a literatura espanhola em si, mas também interessa o que está sendo traduzido ao espanhol do inglês, alemão, do francês... me interessa como editor porque eu estou olhando para uma indústria que é muito grande e rica e que está fazendo muita coisa certa. Eu penso, por exemplo, na qualidade das apresentações gráficas e visuais da indústria editorial espanhola, editoras altamente qualificadas... Eu aprendi muito ao longo da minha vida profissional visitando a produção espanhola, conhecendo melhor os catálogos das editoras espanholas.

Pode-se fazer mais do que se faz hoje? Com certeza, sempre se pode fazer mais. Mas que eu entendo que a indústria editorial brasileira não pode deixar de dar atenção para aquilo que se publica na Espanha, não tenho a menor dúvida. Claro que se você vai comparar a presença da produção literária espanhola versus a inglesa ou americana, a produção espanhola fica devendo, porque tem menos espaço, porque tem menos poder; mas eu sou admirador da cultura e da literatura espanhola.

 

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