Entrevista para o Portal New Spanish Books 2020, guia online de obras de autores espanhóis e agentes literários com direitos de tradução para o Brasil.
Por Márcia Leite, sócia-fundadora, com Leonardo Chianca, da Editora Pulo do Gato.
1.- A primeira pergunta, infelizmente, é obrigatória. A chegada da Covid-19 está afetando todos os setores. Como está sendo para as editoras de livros?
Durante este período, as editoras estão trabalhando em situação de home office, em condições para que a rotina editorial aconteça no plano básico, com menores limitações na área da produção editorial e administrativa e maiores obstáculos, até mesmo paralisação nas áreas comercial e de divulgação escolar (decorrente do fechamento de livrarias, feiras de livro, eventos culturais e escolas).
Nos primeiros meses da pandemia observamos que a maioria das editoras interrompeu seus cronogramas de produção, contratação e planejamento de lançamentos e eventos. Editoras pequenas precisaram enxugar o quadro, já pequeno, de seus funcionários e reduzir os custos possíveis, que não serão suficientes para encarar um longo período sem vendas regulares e indefinições.
Quatro meses depois do início da quarentena, e com a necessidade de prolongarmos o isolamento social, começamos, inclusive a editora Pulo do Gato, a retomar timidamente a publicação de livros, em escala reduzida, mas de forma a promover aproximação com o público leitor por meio das redes sociais e eventos virtuais para lançamentos.
2.- Em relação à mesma pergunta, quais são suas perspectivas para o futuro? Vocês acham que esta crise vai mudar as tendências atuais?
Muito aprendizado há de vir desta situação provisória imposta pela pandemia, que, ao que tudo indica, sugere ter redimensionado o conceito de trabalho presencial e a distância. Como todas as editoras, estamos procurando novos modelos para continuarmos próximos a nosso público (leitores que já nos acompanham e prestigiam), mantendo aquecida a relação por meio de atividades e comunicação virtuais, e buscando também novas alternativas para conquistarmos leitores e segmentos de mercado com os quais ainda não nos relacionamos. As estratégias precisam ser distintas para quem já acompanha a Editora e para aqueles que ainda não conhecem o nosso trabalho editorial. Estamos utilizando plataformas digitais e estudando recursos de marketing digital para ampliar nossa comunicação.
Acreditamos que no Brasil o mercado do livro sofrerá mudanças estruturais durante e após a pandemia, pois a cadeia convencional de vendas e divulgação (editora/distribuidora/livraria/consumidor) foi profundamente abalada com as novas tecnologias de comunicação. O livro não mudou ou mudará, nem a necessidade dos leitores de tê-los em mãos, mas a forma a que o leitor terá acesso a ele, ou a maneira com que se aproximará das editoras, será possivelmente reconfigurada.
3.- Na página Web da Pulo do Gato vocês enfatizam o cuidado com a estética e as ilustrações, mas como vocês equilibram o texto com a ilustração? Vocês têm seus próprios ilustradores ou procuram um ilustrador para cada livro?
Desde que lançamos nossos primeiros títulos, em 2011, temos muito cuidado na escolha de nossos títulos. Priorizamos as características estéticas e literárias de cada livro, considerando a diversidade de estilos de seus autores e ilustradores, a variedade de linguagens, o tratamento e originalidade na abordagem dos temas; a qualidade artística dos projetos visuais, dos formatos...
Na produção de obras nacionais, buscamos contemplar as necessidades que cada obra solicita, o melhor ilustrador para o texto contratado, por exemplo, ou o que precisamos fazer para que o projeto apresentado pelo autor-ilustrador possa crescer. O papel do editor, nas pequenas editoras, é muito importante na direção e na produção da obra. É ele quem seleciona os atores que se tornarão parceiros na obra livro. Trabalhamos com autores, ilustradores e designers (muitos deles reconhecidos internacionalmente) com os quais estabelecemos uma profunda relação de parceria e respeito. Os profissionais valorizam trabalhar com editoras independentes, como a Pulo do Gato, uma vez que elas priorizam a qualidade e a liberdade criativa.
Já quando compramos títulos de outras editoras, optamos por obras que agreguem qualidade e se afinem ao conceito que desejamos imprimir ao nosso catálogo. Buscamos quase sempre títulos de editoras estrangeiras de médio e pequeno porte, como nós, às quais admiramos pelo cuidado que têm com suas obras.
4.- As ilustrações são essenciais na literatura infantil. Vocês acham que são tão importantes na literatura juvenil, pois na sociedade atual estamos mais atraídos por um livro com imagens que sem elas?
A sociedade contemporânea é imagética por excelência. Desde a infância a criança é estimulada a ler imagens em seu cotidiano, nas mídias, nos aplicativos de celulares, nos jogos e programas, todos praticamente autoexplicativos.
Aos livros ilustrados cabe, portanto, subverter o uso da imagem, do pragmático ao poético, levando o leitor ao território da ilustração e das artes visuais como um desafio que ampliará os significados do texto verbal. O livro ilustrado não acrescentará nada ao jovem se as imagens forem apenas referenciais e decorativas. Há toda uma “gramática” do olhar artístico que pode ser explorada por meio das ilustrações dos livros para jovens adultos.
5.- Na Espanha há uma tendência para publicar livros clássicos adaptados a estudantes de 12 a 16 anos, como Don Quijote ou El lazarillo de Tormes. Sua editora já considerou essa possibilidade ou vocês já estão fazendo isso?
A Editora Pulo do Gato não publicou ainda livros de clássicos adaptados, mas não nos opomos à adaptação. Sem dúvida elas cumprem a função de aproximarem os leitores de obras importantes da literatura universal. Até o momento, optamos por publicar textos traduzidos e integrais de grandes escritores estrangeiros que podem ser compreendidos pelas crianças ou jovens leitores. Como é o caso de Júlio Verne, Bertolt Brecht, Wilhelm Busch, George Macdonald, Irmãos Grimm.
6.- A Pulo do Gato acredita nestas duas frentes -- leitores em formação e formadores de leitores, ou seja, estudantes e professores. Na Espanha, o livro para professores contém um guia de leitura que é muito prático. O mesmo acontece no Brasil?
Temos convicção de que sem formadores de leitores não há leitores. Principalmente em um país como o Brasil, em que predomina, infelizmente, uma profunda desigualdade social. Por esse motivo, criamos em nosso catálogo, uma coleção voltada para adultos (Coleção Gato Letrado), cujos títulos trazem ensaios sobre temas voltados à leitura, literatura, formação de leitores, cultura da escrita, bibliotecas, entre outros, com nomes expressivos de especialistas e acadêmicos da área da leitura, como María Teresa Andruetto, Ana Garralón, Daniel Goldin, Marina Colasanti, Yolanda Reyes.
O mercado de livros para crianças e jovens tem vínculos muito fortes com os educadores e instituições de ensino, o que faz com que muitas editoras, principalmente as que também publicam livros didáticos (creio que na Espanha são chamados de livro texto), desenvolvam manuais de atividades para o aluno. Na Pulo, entendemos que o livro literário, assim como o leitor, é único, e sua compreensão também será diversa a partir do contexto social ao qual se insere, sua experiência de vida, sua idade, sua maturidade emocional.
O texto literário não pode estar associado ao propósito do didatismo, “ensinar” pela literatura é dar a ela uma atribuição que não lhe compete e que a reduz. Então, o que procuramos fazer na Pulo do Gato são roteiros de leitura para o educador, que o ajudem a “ler” o livro e a investigar a estrutura, a linguagem, o estilo, o tema, as ilustrações. Acreditamos que uma vez apropriados dos principais elementos da composição do livro, o educador ou mediador de leitura estará mais seguro e apto a explorá-lo com seus alunos, criando atividades com mais autonomia, adequação e criatividade.
7.- A Pulo do Gato também publica livros de autores espanhóis e latinos. Eles são bem recebidos pela sociedade brasileira? Existe uma grande diferença de estilo entre os livros latinos-espanholes e os livros brasileiros? Em caso afirmativo, por que isso acontece?
Sim, nosso catálogo publicou, com orgulho, alguns títulos de autores e ilustradores espanhóis e latino-americanos, principalmente autores-ilustradores como Monica Gutiérrez Serna, Gustavo Martín Garzo, María Hergueta, Dipacho, Jairo Buitrago, Ana Garralón, Federico Delicado, Guridi, Beatriz Martín Vidal, Carme Solé Vendrel, entre outros. Temos um profundo apreço pela cultura espanhola e suas manifestações artísticas.
No segmento do livro para crianças há, sem dúvida, uma aproximação e identidade no que se entende por livros ilustrados, ou livro álbum, ou picture books. Os livros traduzidos de editoras espanholas ou latinas são muito bem recebidos e apreciados, considerando, principalmente, um público leitor já familiarizado com a leitura literária. Isso porque escolhemos títulos que fogem ao padrão de “livro fácil”. Mas, como sabemos, títulos mais “acessíveis” são produzidos e consumidos em qualquer cultura, seja a espanhola ou a brasileira.
8.- Vocês consideram que as obras espanholas, quando têm seus direitos autorais vendidos para o mercado brasileiro necessitam de muita modificação? E quando precisam desta modificação a negociação é tranquila com a empresa espanhola ou são muito exigentes e resistentes às modificações?
No segmento da literatura para crianças e jovens nunca tivemos dificuldades ou obstáculos durante a tradução. Acredito, pelo menos persigo esse propósito nas experiências que vivi como tradutora de alguns títulos da Pulo do Gato, que traduzir literatura é oferecer a um leitor de outra língua a experiência leitora que o leitor nativo da língua original teria quanto ao sentido e à literariedade.
Se a tradução acontece entre línguas mais próximas ou entre as muito distantes, naturalmente que a sintaxe, o léxico, a estrutura das palavras, tudo isso precisa ser muito bem considerado na hora de fazer escolhas. Mas preservar a literariedade, para mim, é mais importante do que procurar fazer uma tradução literal.
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