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Enviado por admin em Qua, 28/09/2022 - 07:55
A sedução do real: a literatura espanhola e a história

A literatura espanhola sempre foi vista por nós, estrangeiros, como uma que oscila entre o respeito à tradição sólida e centenária e uma pulsão que a impele a experimentar e a romper normas. Não à toa ela é assombrada centralmente pelo fantasma do Quixote: o livro de Cervantes ao mesmo tempo se definiu como o clássico inescapável e como um dicionário de rupturas literárias.

Nas letras contemporâneas, é possível observar ambos os polos em ação: de um lado, uma escrita tradicional, focado em storytelling, como Pátria, de Fernando Aramburu, o maior êxito comercial saído do país dos últimos anos; do outro, exercícios selvagens que testam o limiar da ficção. No segundo time, podemos situar, por exemplo, a obra de Enrique Vila-Matas, que inclui títulos como Bartleby e companhia, composto de “notas de rodapés a um texto invisível”, além de Paris não tem fim e Diário volúvel, que ajudaram a difundir pela Europa o gênero autoficcional. 

No entanto, na opinião deste crítico, ambas as correntes têm passado por algo que defino, de forma precária, como “sedução do real”, isto é, uma aproximação da ficção de fatos históricos conhecidos ou ocultos na sombra da História Oficial. É claro, a maneira como cada autor lida com o material base é diferente, indo desde um trabalho investigativo para descobrir meandros de um acontecimento da Guerra Civil e se inserindo como autor-pesquisador na história (Javier Cercas em Soldados de Salamina) à criação de personagens fictícios cujos rumos são ditados por acontecimentos traumáticos da história (Pátria, de Aramburu, que oferece um panorama ficcional do conflito basco). O romance histórico convencional tampouco saiu de moda (Alatriste, de Arturo Pérez-Reverte) e, no polo oposto, pode-se mencionar autores que sentem um imenso prazer no embaralhamento proposital entre história e ficção (História abreviada da literatura portátil, do supracitado Enrique Vila-Matas).

Por um lado, é possível interpretar essa apropriação do histórico como sintoma de que a ficção não é mais suficiente: como se os leitores, acostumados com notícias 24 horas, escândalos e acontecimentos importantes acompanhados ao vivo, precisassem de uma conexão com o “real”. Do contrário, livros seriam apenas escapismo. 

Também podemos ler essa nova abordagem da história como um reflexo da politização progressiva de todas as esferas de nossa vida. A literatura, portanto, seria um excelente portal para refletir a respeito da história recente, desde movimentos separatistas (do País Basco, da Catalunha...) ao trauma do franquismo. 

No entanto, sempre surgirão novos casos que sabotam qualquer espécie de generalização. Tomemos, por exemplo, A ridícula ideia de nunca mais te ver, de Rosa Montero, que obteve um bom êxito crítico no Brasil. O livro reconstrói a vida (real) de Marie Curie, que enviuvou cedo e registrou em detalhes seu sofrimento, ao mesmo tempo em que serve de vazão para a própria Montero expor o seu luto com a morte do marido. Neste caso, o material histórico não está servindo de amparo à ficção, mas à outra história, íntima e tão real quanto a de Curie. O resultado é difícil de classificar – ensaio histórico/pessoal? Talvez seja mais fácil dizer “é boa literatura”, para o ódio dos viciados em taxonomia de gêneros. 

A questão de se inserir no próprio texto – batizado às vezes de autoficção, um gênero que foi moda no Brasil e depois desapareceu com a mesma rapidez que chegou – também está presente nos livros de Javier Cercas. Soldados de Salamina, além de trazer o próprio Cercas como personagem, conta com a figura enigmática de Roberto Bolaño e se torna leitura obrigatória para fãs do autor chileno radicado na Espanha, cuja biografia é rodeada de mistérios. Porém, o quanto podemos confiar que aquilo narrado acerca de Bolaño-personagem no livro de Cercas traz informações biográficas precisas?

Um caso curioso é o de A velocidade da luz, obra de Cercas escrita após o imenso sucesso de Soldados de Salamina: o próprio autor volta a ser personagem, mas aqui a ficção ganha mais espaço, em especial através de Rodney Falk, veterano do Vietnã que narra uma história de violência horrível. O leitor desavisado, após receber tantas informações “reais” sobre o personagem Javier Cercas, acredita que Falk de fato existiu, assim como cada uma das cenas do romance (o que inclui um desfecho bastante trágico para Cercas, o personagem).

É como se o autor tivesse conquistado a confiança do público em Soldados de Salamina e levado sua mescla radical entre história e ficção a um novo patamar em A velocidade da luz. A chave talvez esteja numa fala do próprio personagem de Falk: “Falar muito de si mesmo é a melhor maneira de se esconder”. Onde está o Cercas “real”? É possível alcançá-lo? Pois ao se inserir como personagem, o autor instala um jogo de fumaças e espelhos, enquanto o leitor busca escancarar a ilusão do truque de magia. 

Tais livros costumam se encaixar em um subgênero batizado de “metaficção historiográfica”, uma das formas mais marcantes do pós-modernismo. A teórica Linda Hutcheon, especialista no assunto, o define da seguinte maneira: “a metaficção historiográfica refuta os métodos naturais, ou de senso comum, para distinguir entre o fato histórico e a ficção. Ela recusa a visão de que apenas a história tem uma pretensão à verdade, por meio do questionamento da base dessa pretensão na historiografia e por meio da afirmação de que tanto a história como a ficção são discursos, construtos humanos, sistemas de significação, e é a partir dessa identidade que as duas obtêm sua principal pretensão à verdade.” (HUTCHEON, 1991, p. 127 apud DUARTE, 2021, pp. 50-51). Em outro momento, ela afirma que “o passado existe para nós - agora - apenas como traços a partir do e no presente.” (HUTCHEON, 2001, p. 69 apud DUARTE, 2021, p. 52)

Em outras palavras: saiu de cena a apropriação inocente do passado do romance histórico convencional e entrou um jogo metalinguístico que destaca o impacto da história no presente, deixando claro que o “real” do passado é uma construção que varia conforme as lentes que usarmos na atualidade.

No entanto, é claro que não apenas autores pós-modernistas como Cercas e Vila-Matas são seduzidos pela pulsão do real. A abordagem histórica também pode servir para acrescentar níveis de leitura e trazer elementos políticos para gêneros literários populares. É o caso do noir A tristeza do Samurai, de Victor del Árbol, ou ainda O tempo entre costuras, de Maria Dueñas, um thriller melodramático cuja adaptação televisiva foi um sucesso internacional. Pode-se argumentar que estes livros não buscam desbaratar filosoficamente o estatuto intocável da História Oficial, ou seja, não se enquadrariam como “metaficção historiográfica”, mas apenas porque os autores não direcionam seus holofotes para os artifícios, focando, em invés disso, o enredo e as ressonâncias do passado em nosso presente. 

O uso de elementos históricos – em maior ou menor nível, com respeito ou com reinvenção – parece ser uma tendência que veio para ficar, e podemos analisar, pelos sucessos tanto de crítica como de público, que a Espanha é um dos maiores celeiros desse tipo de literatura. 

REFERÊNCIAS:

DUARTE, Fabiana. A autoficção e a metaficção historiográfica em Soldados de Salamina, de Javier Cercas. UNESP, São José do Rio Preto, 2021

HUTCHEON, Linda. Poética do Pós-Modernismo. Rio de Janeiro: Imago, 1991. 

HUTCHEON, Linda. Re-presenting the past. In: The Politics of Postmodernism. London and New York, Routledge, 2001, p. 62-92.

Antônio Xerxenesky é escritor, tradutor e doutor em Teoria Literária pela Universidade de São Paulo (USP). Verteu ao português a obra de autores como Enrique Vila-Matas, Adolfo Bioy Casares, Fernanda Melchor e Rodrigo Fresán.

 

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