ENTREVISTA PAULO ROBERTO PIRES
Paulo Roberto Pires é jornalista e professor da Escola de Comunicação da UFRJ. Foi editor de cultura da revista eletrônica No.com e, após anos de experiência escrevendo sobre literatura no Jornal do Brasil, no jornal O Globo e na revista Época, tornou-se editor de livros - inicialmente na editora Planeta e, posteriormente, na Ediouro e na Agir. É autor dos perfis biográficos Hélio Pellegrino - A paixão indignada (Coleção Perfis do Rio, 1998) e A marca do Z – Avida e os tempos do editor Jorge Zahar (Zahar,2017) e dos romances Do Amor ausente (Rocco, 2000) e Se um de nós dois morrer (Alfaguara, 2011). Organizou a obra poética e jornalística de Torquato Neto nos dois volumes da Torquatália (Rocco, 2004) e foi colunista do site No Mínimo. Atualmente, é editor da Serrote, revista de ensaios do Instituto Moreira Salles.
1. Como foi o salto do mundo jornalístico ao mundo editorial?
Essa é uma passagem que muita gente já fez, mas para mim está relacionada diretamente com a Espanha, porque foi a partir de um convite do Grupo Planeta que eu deixei de ser jornalista para ser editor. Eu tinha terminado aqui uma experiência de uma revista virtual pioneira, o No.com, ‘Notícia e Opinião’, e eles estavam procurando nomes para começar uma editora no Brasil. Essa passagem envolveu juntar o meu conhecimento do mercado nacional e estrangeiro a partir da cobertura jornalística – eu já tinha ido a duas feiras de Frankfurt. Na Planeta lançamos bons escritores e ficção até então inéditos.
2. Como professor universitário você está em contato com o público mais novo. Quais são as produções literárias mais populares entre os jovens brasileiros?
É muito difícil você ter esse perfil, porque os alunos de jornalismo, por exemplo, estão obviamente interessados nos títulos jornalísticos e coisas que tem a ver com a sua profissão. Mas, como leitores gerais, falando de pessoas de 18 ou 19 anos, eu diria por um lado que eles são mais leitores de fantasia e de ficção. Por outro lado, eu acho que o que domina são leituras que tem a ver com os principais temas do Brasil hoje: o combate ao racismo, o feminismo e a discussão política. Talvez o único lucro que nós estamos tendo nesses últimos anos no Brasil é ter despertado a consciência das pessoas para temas fundamentais. Acho que há dois pontos de interesse, bem diferentes entre si: o engajamento nas questões do momento e toda uma produção de entretenimento.
3. Como editor você está em contato diário com a atualidade do setor: quais você acha que são as principais tendências do mercado editorial brasileiro?
Tem uma coisa notável, que é a multiplicação de editoras, um fenômeno que já vem se dando há muito tempo e acompanha outros mercados. Eu a vejo como uma espécie de reação à concentração de grandes grupos. Cria-se um terreno fértil para as editoras pequenas, que podem explorar autores e títulos que não cabem nos grandes grupos editoriais porque não encaixam com os parâmetros mais comerciais. Agora tem muita editora pequena interessante, muito sofisticada: elas deixaram de ser uma atividade simplesmente marginal, são muito organizadas, estão muito integradas ao mercado e podem ser encontradas nos pontos de venda convencionais.
O outro ponto tem a ver com a não ficção que o mercado americano chama de “current affairs”, os assuntos de hoje em dia. Aqui no Brasil estão realmente se multiplicado pela necessidade das pessoas de discutir esses temas da sociedade civil. Isto é muito importante e também muito político. São discussões essenciais, muitas delas viram best sellers.
4. A revista Serrote tem especial relevância na promoção do gênero ensaístico. Quais são as temáticas mais populares no momento atual dentro de esse gênero?
A revista nasceu há 12 anos, criada pelo Flávio Pinheiro, que era então diretor do Instituto. Agora está no número 41, eu comecei nela no número 5, explorando esse gênero, o ensaio, que hoje é muito mais popular do que há alguns anos mas que não é inteiramente conhecido. Trata-se de um texto de opinião, curto, destinado a não especialistas, mas que é um exercício de inteligência, sem medo de parecer arrogante, já que não é simplesmente um artigo, é uma coisa que tem um pezinho na literatura. As temáticas são muitas. Nós nos definimos como uma revista de ideias, literatura e arte, mas também abordamos sociologia, história. Também tentamos locar em discussão muitas questões quentes, além de buscar novos autores com um concurso de ensaios destinado a autores que não são necessariamente jovens, mas que têm publicado apenas um livro no máximo. A revista não exatamente “descobre” um autor, mas tem sido o lugar em que muita gente interessante aparece como o vencedor do segundo prêmio Serrote, Francesco Perrotta-Bosch, autor de uma biografia da Lina Bo Bardi, e a Djaimilia Pereira de Almeida, escritora premiada.
A revista é muito democrática, e pode ter um ensaio sobre Shakespeare e alguma coisa em cima da luta política imediata, tem que ter uma mistura. Até publicamos vários ensaios sobre o gênero do ensaio. O que interessa é a diversidade, porque a revista é um convite à reflexão.
5. De quais países você acha que são os ensaios internacionais mais populares no Brasil e por quê?
No Brasil somos muito voltados para os Estados Unidos e, no caso de ensaio, isso se agrava, porque é o lugar do grande ensaísmo. Não estou fazendo uma escala de mérito, mas tem muito ensaio lá. Também em francês e espanhol, mas na revista procuramos também variar as procedências, as cabeças, com as dificuldades que se podem imaginar. Por exemplo, no Brasil há poucos leitores de alemão, língua que é menos traduzida na revista. Da Espanha, já publicamos Javier Marías, Marina Garcés e Javier Cercas, por exemplo.
6. Você poderia explicar, para você, qual é a percepção da literatura espanhola aqui no Brasil? Acha que tem interesse nas obras espanholas? E nos ensaios em particular?
Do ponto de vista em geral eu acho que sempre é popular, sobretudo no caso dos autores de romances comerciais e de romances históricos. Agora eu posso dizer alguns que estão editados, como o Enrique Vila-Matas. Ele é muito singular, nada convencional, e isso interessa muito. Outra autora que eu já editei é a Rosa Montero, que foi apresentada ao Brasil num livro incrível que é A louca da casa. Há pouco tempo publicou “A ridícula ideia de nunca mais te ver”, que é um livro sobre o luto, sobre a perda do marido. Ela vai da ficção à não ficção, porque ela é uma ótima jornalista também. O outro que eu também acho interessante, e que também já até publiquei um livro dele, é o Juan José Millás. Então eu diria que tem dois planos, os autores espanhóis mais comerciais, por motivos óbvios, e os mais literários nos atrai esse caráter um pouco experimental. Mencionei os nomes consagrados porque eu parei de olhar editorialmente para o mercado espanhol por uma questão de foco.
7. Tem alguma coisa que, no seu ponto de vista como editor, facilite a venda dos direitos de autor aqui no Brasil?
Há questões pouco literárias que dificultam, como por exemplo livros extensos, de tradução e produção caras, mas o escritor não vai escrever pensando no tamanho, vai escrever o livro que precisa escrever. Mas é uma dificuldade concreta. Facilita muito um lançamento a disposição do autor vir ao país. Eu acho que com toda essa cultura de festa literária, o encontro é cada vez uma coisa mais importante, às vezes eu diria que decisiva. Na segunda Flip, ou seja, 18 ou 19 anos atrás, apareceu a Rosa Montero do nada, ou seja, ninguém tinha ouvido falar remotamente sobre ela. Porém, você ouve essa mulher por 50 minutos e quer comprar todos os livros dela. Mas também é importante notar que o escritor não é e nem tem que ser um performer, às vezes não quer e nem consegue se expor, escrever é um trabalho muito solitário e nem todos têm esse perfil. Mas esses que são bons comunicadores é claro que têm uma certa vantagem.
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