Marcelo Ferroni– Editor da Editora Companhia das Letras
Boa tarde Marcelo é um prazer poder realizar esta entrevista com você para ser publicada no Portal New Spanish Books 2018 a guia online de obras de autores espanhóis e agentes literários com direitos de tradução para o Brasil. O objetivo do portal é encontrar editora brasileiras interessadas na compra dos direitos autorais destas obras. Na web, além das resenhas literárias dos títulos selecionados, o você poderá encontrar também o artigo “Há leitores brasileiros para as letras da Espanha?” de Valeria de Marco .
1.- Segundo a informação das livrarias mais importantes no Brasil, entre 2015 e 2017 as importações brasileiras de livros de leitura espanhóis caíram devido à instabilidade política e a apreciaçã o do Euro frente o Real. Portanto, os preços dos livros importados subiram e as vendas caíram. Porém, em 2018 se vê um crescimento das importações de livros no mesmo período com respeito ao ano passado. Como você avalia a situação atual da literatura de língua espanhola e a sua inclusão no Brasil? Qual é a sua visão com respeito à compra de direitos autorais?
De forma geral, o Brasil sempre teve muita relação com a literatura principalmente latino-americana com autores mais clássicos e que foram muito lidos aqui: García Marques, Vargas Llosa e Jorge Luis Borges. Portanto, a conexão inicial seria maior com essa literatura latino-americana, principalmente sul-americana, onde podemos destacar a Rufo no México, que vejo que foi muito importante aqui, além de muitos outros autores. Por um lado, esses autores são relativamente conhecidos, mas por outro, o que você já deve ter visto em outras entrevistas, se trata de uma barreira cultural e também muito de linguagem entre o Brasil e os outros países da América Latina.
Então ao mesmo tempo em que você tem esses autores, e na minha opinião tem essa literatura latino-americana riquíssima e também muito forte de língua espanhola de autores espanhóis, você tem essa barreira no mercado brasileiro que faz com que você tenha muito poucas traduções. E quando você tem surtos de traduções, e eu peguei isso entre 2008 e 2012, quando o mercado editorial brasileiro estava mais pujante e estava publicando muito mais, houve uma aquisição e publicação muito maior de livros de autores de língua espanhola, mas sempre com vendas baixas, o que mostra um outro problema, um problema adicional a essa barreira cultural entre o Brasil e os países de língua espanhola; pois, por um lado temos a barreira prática (da tradução, de adquirir os títulos); e uma segunda barreira cultural dos leitores terem um certo distanciamento dessa literatura por melhor que ela seja. Isso foi uma coisa que a gente sentiu, eu poderia dar alguns exemplos práticos. Estou na Companhia das Letras agora, trabalho com alguns selos do Rio de Janeiro e um deles é Alfaguara, que é um selo criado na Espanha nos anos 60. Esse selo foi criado no Brasil no começo desse crescimento editorial. Era ainda editora Objetiva, que foi comprada pela Santillana, enorme grupo espanhol que comprou 75% da Objetiva e começou a lançar alguns selos espanhóis aqui, entre eles o Alfaguara em 2006. Era uma proposta de literatura internacional, a literatura brasileira tinha os clássicos mas os contemporâneos demoraram ainda uns dois anos, porém com foco em autores espanhóis e latino-americanos. Eu acho que o catálogo nos primeiros anos ficou muito associado a autores de língua espanhola, mas os resultados sempre foram muito difíceis. Tinhamos resultados bons com alguns autores como Vargas Llosa, que sempre vendeu muito bem no Brasil. Todo ano publicávamos, por exemplo, o prêmio Alfaguara, que na Espanha é um prêmio reconhecido, e eu acompanhava as reuniões que se realizavam mensalmente com os editores espanhóis e latino-americanos, e eles faziam turnê com o autor de cada país. Desse modo cada país imprimia uma quantidade e por mais desconhecido, por mais difícil que o livro fosse, esses livros vendiam bem nos países de língua espanhola. Contudo, no Brasil foi muito difícil: no começo tivemos inclusive uma atenção da imprensa onde os dois ou três primeiros livros do prêmio Alfaguara que lançamos tiveram bom destaque, mas nunca se converteram em vendas. Então a questão é essa: uma questão de países que estão próximos porque mesmo no caso da Espanha com o Brasil você tem uma literatura muito próxima e autores geniais e acessíveis para o leitor brasileiro e, ao mesmo tempo, esse mercado que é tão difícil de se abrir. Logo vivemos esse conflito aqui no mercado brasileiro que se agravou agora com a crise, então os primeiros livros que estão sendo cortados nas aquisições são os livros literários, o que é uma pena. A situação agora é muito difícil e eu acho que o momento é complicado para colocar a literatura de língua espanhola no Brasil.
A situação quando se trata de compra de direitos autorais é muito parecida, como já falei com o exemplo dos prémios Alfaguara que se refere a direitos comprados e publicados no Brasil. Na questão de aquisição de direitos existe a dificuldade de como chegar ao público leitor, de como você vender esses livros muito bons em uma quantidade que pelo menos o projeto se pague. Isso acontecia antes, inclusive com os apoios do governo espanhol que sempre foram muito bons. Usamos algumas vezes aqui no Brasil, era um apoio diferente de agora, mas outro programa do governo espanhol e que foi ótimo. Onde conseguíamos, por um momento, lançar um livro que vendia 1.500 exemplares e às vezes atingia 2.000, isso pagava a tiragem. Se fosse uma tiragem de 3.000, o breakeven que chamamos seria em torno de 1.200 e 1.300, e você conseguiria boas resenhas, você estava publicando, fazendo um trabalho importante de trabalhar com a literatura, de divulgar esses novos nomes, e entrar no processo que com os autores menos conhecidos vendia um pouco mais e os mais conhecidos tinha vendas muito boas, caso de Vargas Llosa, García Marques, Javier Marías, foram livros que tiveram muito bons resultados. Assim se compensava: esses grandes autores vendiam bastante, os pequenos vendiam um pouco menos mas se sustentavam. Isso agora está mais difícil. Agora um livro que vendia 1.500 está vendendo 500, o que não paga a tradução. Você tem uma perda muito importante e o que está acontecendo é que a situação nas livrarias brasileiras também está muito complicada. Devido à crise, as grandes livrarias estão sempre interessadas nos livros mais comerciais onde compram grandes quantidades, colocam na frente de loja, vendem e fecham a operação. A literatura vem junto com esses livros comerciais, mas ela vem como os livros que demoram mais para vender e em menores quantidades. É uma aposta de longo prazo. A partir do momento que você tem essa crise e essa necessidade de você ter um retorno mais rápido, a literatura sofre. Para os livros literários fica mais difícil, pois eles ficam menos tempo expostos e, em qualquer livraria brasileira hoje em dia devido a essa situação difícil, você tem que pagar para manter o livro exposto, o que representa mais custo sobre o livro. Aliás, muitas vezes nem assim o livreiro aceita colocar o livro na frente, preferindo os de venda mais rápida. Então o mercado está criando muitas dificuldades para o posicionamento de uma literatura, muitas vezes ainda a ser descoberta, e que é uma literatura riquíssima. Eu fiquei muito em contato com essa literatura enquanto só editor da Alfaguara, então só trabalhava e só lia literatura espanhola e falava muito com os editores espanhóis e com alguns na América Latina e eu fui atrás de muitos autores que publicamos, uns nomes muito legais, mas atualmente todas as editoras reduziram e estão nesse momento muito mais cuidadosas.
2.- Qual foi o último livro espanhol que mais impressionou você?Qual é o seu escritor espanhol ou seus escritores espanhóis preferidos?
Alguns livros me marcaram muito. Tem um que recentemente eu reli, e que foi um livro impressionante que publicamos no começo da Alfaguara, Nada de Carmen Laforet. Se trata de um livro brilhante que ela publicou muito jovem, depois chegou a publicar outros romances mas ela ficou famosa por esse. É um livro lindo. Gosto também do Javier Marías. Eu não li os últimos livros dele mas eu gosto muito do livro Mañana en la batalla piensa en mí. É o último livro que li dele e não na época, eu li recentemente e também achei brilhante. Dos contemporâneos pensando em espanhóis eu gosto muito do Enrique Vila-Matas mas principalmente dos primeiros livros dele. Também tenho muito contato com os latino-americanos e eles têm uma literatura um pouco distinta. A literatura espanhola tem uma pegada muito diferente e é muito legal você lê os dois e descobrir as diferenças entre eles.
3.- Qual é a perspectiva que você vê para o setor? Tem uma visão mais negativa ou positiva deste futuro?
A minha expectativa é que essa situação melhore; com as editoras sendo obrigadas a mudar; as maiores a se redimensionar e pensar melhor nos lançamentos, o que já vem sendo feito; reduzir as linhas por um tempo; e ai em algum momento ter um equilíbrio entre as editoras grandes e as pequenas porque as pequenas são importantíssimas para a literatura. Essas são normalmente as editoras que vão encontrar grandes autores contemporâneos de outras línguas e vão publicar com qualidade, e principalmente se tiverem apoio para a edição, e vão conseguir apostar no autor. Tenho a expectativa de que essa crise em algum momento melhore, com as editoras e as livrarias de alguma forma se redescobrindo em um novo espaço para elas e que isso dê um espaço para você florescer e fazer surgir as editoras pequenas para você ter essa contraposição. Quando o mercado melhora, aparecem novas editoras. A questão é melhorar e manter uma mínima estabilidade para que se consiga gerar o capital com um mínimo de catálogo e lutar para manter.
4.- Seria correto dizer que nos dias de hoje o conteúdo digital está “com endo terreno” no setor editorial? Como é que as editoras podem se adaptar a um consumidor cada vez mais "digitalizado"? E como isso pode ajudar (ou não) economicamente na compra de direitos autorais?
Quando o ebook foi lançado as pessoas pensavam que ia acabar com o livro e com o tempo se descobriu que não, que é um meio adicional ao livro. Se não me engano, os números nos EUA do ebook tem entre 25% e 30% do livro físico e parou, depende um pouco se é um livro comercial um pouco mais, se é literário um pouco menos, livro técnico... mas a média é mais ou menos essa. No Brasil, está entre 5 e 7% nos casos mais comerciais. A categoria de livros de negócios vai para 7%, às vezes ela fica entre 3% e 4%, mas fica nesse meio estável. É um livro com custo mais baixo de produção com uma venda menor e royalties um pouco maiores para o autor. Por entanto, a venda ainda não é significativa para ele mudar toda a conta da aquisição de título. O ebook crescendo um pouco ajudaria e não é uma coisa ruim, porém não sabemos até que ponto a pirataria pode afetar isso, mas parece também estar estável. Por outro lado, as editoras estão sempre buscando novos meios para conseguir vender os seus livros já que o livro no papel está estável ou diminuindo, no caso americano está praticamente estável e no brasileiro as últimas pesquisas confirmam essa queda nestes anos de crise.
Outra área são os audiobooks: que é um outro caminho que está todo mundo olhando para ele agora para ver as oportunidades. É um mercado que está crescendo muito nos EUA; na Alemanha é enorme e tem uma tradição que inclusive concilia não só a produção dos livros, mas também os programas de rádio já super tradicionais de leituras, de clássicos, etc., e que possibilitou a transformação de grandes livros em ebooks. Isso no Brasil é muito incipiente mas é algo que começa a interessar muito as editoras, porque antes você tinha que comprar um CD e ouvir no carro em algum lugar. Agora no celular pode ouvir um audiobook. É uma opção muito interessante, você tem um custo de implantação muito alto pois tem que ter um estúdio para as gravações, e no Brasil ainda tem esse estudo de viabilidade mas é um outro formato, como o digital, que está interessando às editoras como uma forma mais de você buscar leitores.
5.- Em sua opinião, que tipo de literatura, principalmente espanhola, teria hoje mais possibilidade no mercado brasileiro ou quais são os segmentos mais vendidos para tradução do espanhol para o português?
Eu sou editor de literatura adulta então eu não posso falar muito da infantil, mas o que eu posso dizer é que a infantil está numa situação um pouco mais difícil por conta das compras do governo que diminuíram. Antes a literatura era muito pensada em função disso também, e agora os editores estão repensando para chegar as escolas privadas. Porém nesse momento, diria que teria mais interesse uma composição dos romances, dos clássicos e dos contemporâneos. Já os contos, historicamente são um formato difícil com pequenas exceções. A poesia também precisaria partir do clássico e entrar nessa categoria para ser mais vendida e mais adotada, mas eu acho que o interesse nesse momento seriam os romances e romances com essa questão da voz do autor, uma coisa que realmente puxe o leitor até essa voz que cative, que traga o leitor para dentro, como por exemplo Javier Marías, com esse domínio estilístico incrível, mais isso do que um romance experimental, mais fechado para o leitor comum. Não que não possa ser feito e acho que deve ser feito, e minha formação passa muito por isso, mas talvez nesse momento por editoras menores que assumam mais esse risco, pois uma editora grande nesse momento está em uma situação bem complicada ao fazer essa decisão.
6.- Uma vez comprado o direito autoral, como se dá o processo de tradução? O governo brasileiro tem ajudas econômicas à tradução de livros estrangeiros? Que instrumentos as editoras usam para fazer uma tradução veraz e responsável? Tem conhecimento das ajudas econômicas oferecidas pelo Ministério de Educação e Cultura do Governo Espanhol?
Nós já temos alguns tradutores com quem trabalhamos melhor e que já são tradutores da casa, e uma vez comprado o livro se decide qual seria o editor melhor para pegar esse projeto e depois encomenda a tradução ao tradutor. Ele às vezes coloca numa fila, às vezes ele para porque está fazendo uma coisa urgente, e é assim que o processo segue. A duração é de entre 3 e 6 meses, depende do tamanho do livro e da disponibilidade do autor. Então normalmente um livro sem pressa nós compramos e demora um ano para publicar, porque você tem três meses de tradução, uns quatro meses de edição e você depois tem que imprimir e escolher a melhor dada de lançamento.
O Governo brasileiro não tem atualmente apoio para tradução de livros estrangeiros no Brasil, por isso que às vezes o apoio de outros países é muito bem vindo e ajuda muito.
Temos conhecimento do programa de ajuda à tradução do Governo da Espanha. Ainda não usamos, porém vejo como um ótimo programa. useful-information
7.- Como você entende que é considerada a literatura e cultura espanholas pelo público brasileiro?
Entendo que os brasileiros adoram a cultura espanhola e conhecem alguma coisa disseminada: a comida, a música, o cinema... E que sempre são vistos e recebidos de braços muito abertos. Eu acho que até mais do que a literatura (uma literatura que fica sempre do lado mais clássico mas ainda resta ser descoberta a literatura contemporânea) talvez o cinema seja mais conhecido do que a literatura. Porém, eu acho que você tem, apesar de ter essa barreira na tradução, essa que já falei antes, ao mesmo tempo você tem essa simpatia e essa abertura intelectuais que se formaram com textos ou espanhóis ou latino-americanos. Enfim, mas com a língua espanhola.
8.- Acredita que a demanda tanto para a literatura como para a cultura espanhola tenderá a aumentar?
Você precisaria de alguns autores ou um autor que fizesse um grande sucesso e puxasse outros, como acontece normalmente em qualquer lugar. Por exemplo, nos EUA você teve aquele grande sucesso do Stieg Larsson e isso puxou essa literatura nórdica e começou todo o mundo querendo editar a literatura nórdica, mas é um caso extraordinário. Quando esses autores clássicos fazem muito sucesso, aparecem outros na esteira que podem ser publicados. Portanto, isso poderia dar um impulso para a literatura: um grande autor publicado ter um êxito, um pouco como teve agora a autora Elena Ferrante, com o livro a Amiga Genial. Enfim, isso sempre ajuda; os leitores ficam com interesse pela cultura do país de uma forma geral; querem conhecer um pouco mais; querem ler e ter mais essa sensação de ter lido um autor bom que tenha alguma familiaridade; começam a buscar mais; e o espaço vai se abrindo um pouco mais. Em suma, na minha opinião, as editoras deveriam bancar mais, uma vez que se tem tantos autores espanhóis bons, e fazer eles funcionarem no mercado. Essa é a grande questão: fazer eles funcionarem mais. E o que precisa ser feito para conseguir isso é talvez começar por autores com uma pegada um pouco mais comercial para puxar os mais literários.
9.- Com a sua experiência, o que se faz atraente para uma editora brasileira comprar direitos autorais de obras espanholas? O que lhe faz identificar um autor espanhol que seja interessante?
O autor espanhol tem que já ter feito a sua trajetória no seu país. Portanto, ou ele já tem uma quantidade de romances e uma crítica já consistente e foi crescendo muito devagar, ou ele ganhou um prêmio, ou ele começou a ser muito traduzido, ou ele estava numa casa editorial pequena e passou a ser publicado por uma grande, ou fez um livro que começou a vender muito e estourou e todo mundo quer saber quem é ele. É difícil aparecer um autor estreante numa editora pequena ainda começando e ganhar uma edição no Brasil. Não é impossível. Nós mesmo já tivemos uma experiência assim. Normalmente, nós olhamos para o que está funcionando e o que não está funcionando no país, não só a nível financeiro que já falamos muito disso por causa da crise, mas também um selo editorial literário tem que ter preocupação com a qualidade, e é uma coisa que a gente presa muito aqui e por isso que estamos sendo tão cuidadosos, se quer continuar publicando bons autores. Ademais, ele tem que ter feito essa carreira, que não é necessariamente uma carreira de êxito comercial, mas uma carreira de consistência. O êxito pode ser de crítica, ou nos livros dele você vai vendo o desenvolvimento da linguagem e vai vendo que é um autor de fôlego. Tudo isso é importante para a editora brasileira na hora de avaliar um autor espanhol para a publicação.
O que mais atrapalha são os custos, entre eles o adiantamento, e quanto mais importante é o autor maior o adiantamento que o agente quer, o que muitas vezes atrapalha o negócio porque entra diretamente na conta da rentabilidade do livro, e os custos da tradução e às vezes de promoção.
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