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Enviado por admin em Qua, 28/09/2022 - 07:57
Poetas espanhóis no brasil

Fabio Weintraub 1

Julho de 2020. Para quem se atreva a refletir sobre qualquer fenômeno do mercado editorial brasileiro – por exemplo, a presença, a força e a diversidade de autores espanhóis publicados por aqui – é incontornável considerar as crises e transformações recentes que pelas quais ele vem passando, não apenas em função da pandemia e do confinamento, mas mesmo antes, em decorrência do quadro de recessão dos últimos cinco anos, que a pandemia obviamente agravou consideravelmente.

Segundo a última pesquisa “Produção e Vendas do Setor Editorial Brasileiro”, coordenada pela Câmera Brasileira do Livro (CBL) e pelo Sindicato Nacional de Editores de Livros (SNEL), embora em 2019 o faturamento total do setor tenha sido 6% maior do que no ano anterior, a série histórica registrada desde 2006 acusa um decréscimo acumulado de 20%, sendo que as maiores perdas ocorrem a partir de 2015. No que se refere ao subsetor de “Obras gerais”, o crescimento no período 2018-2019 foi de 15% no mercado privado e de 28% nas vendas totais (mercados público e privado), contra uma queda de 37% no período 2006-2019, para o mercado público, e de 34% nas vendas totais. 2

Paralelamente à queda histórica no faturamento, verifica-se também um aumento significativo no consumo de livros em formato digital (e-pub, audiolivros) como resposta ao fechamento das livrarias e ao isolamento dos leitores. Arantza Larrauri, CEO da Libranda, distribuidora de conteúdos digitais da Espanha, em entrevista recente, alude ao crescimento em 2019 de 12,5% de livros digitais na Espanha, sem que se saiba se esse número se refere a um aumento de quem já consumia habitualmente os formatos digitais ou à conquista de novos leitores, que consumiam livros em papel e passaram a consumir digitais 3.

No entanto, o aparente entusiasmo com a oferta digital requer, de todo modo, uma investigação mais detalhada sobre a mudança nos hábitos de leitura. Nas redes sociais, como contraponto à panaceia digital, encontram-se vários relatos de internautas referindo-se à dificuldade para se dedicar à leitura – em qualquer tipo de formato ou suporte – em tempos de pandemia, como se outras formas de entretenimento (por exemplo, as minisséries da Netflix) levassem de alguma maneira vantagem sobre os livros, no que se refere ao potencial para distrair e consolar.

De todo modo, voltando aos livros de autores espanhóis publicados no Brasil, vale dizer que, afora a quantidade pequena de títulos traduzidos, em comparação com as obras de autores anglófonos e francófonos (em 2015 de 4.781 obras traduzidas, apenas 183 eram de autores espanhóis), boa parte desses títulos não se encontra disponível em formatos digitais. Mas talvez seja importante colocar em perspectiva histórica as dificuldades de difusão desses autores entre nós, dentro de um arco histórico mais largo. As páginas a seguir dedicam-se a tal propósito dando destaque a um gênero literário – a poesia – em que as dificuldades de “aclimatação” são ainda mais pronunciadas.

A presença da literatura espanhola no mercado editorial brasileiro foi sendo construída paulatinamente. Autores desse país não estavam, em regra, entre as principais fontes dos movimentos literários do Brasil na primeira metade do século vinte, época em que surge a indústria editorial brasileira.

O próprio Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, um clássico universal, só foi publicado no Brasil pela primeira vez pela Editora Cultura, em São Paulo, nos anos de 1942 e 1943, em dois volumes, em tradução feita em Portugal 4.

No campo da poesia, essa presença tem-se construído de forma ainda mais vagarosa. Alfredo Bosi, em sua História concisa da literatura brasileira, destaca, na seção de tradução de poesia, entre os autores espanhóis, apenas as poesias de Rosalía de Castro traduzidas por Ecléa Bosi. Somente em 1988, em tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos, a poesia de Góngora, outro clássico, receberia um volume no Brasil (Poemas de Góngora, Art Editora). Os poetas ligados ao movimento concretista que se destacaram também pela atividade tradutória (Augusto de Campos, Haroldo de Campos, Décio Pignatari) não dedicaram livro algum a poeta espanhol, embora tenham abordado obras tão diferentes quanto as de Maiakóvski, Arnaut Daniel, Mallarmé e Rilke.

Neste breve artigo, algumas iniciativas de divulgação desta poesia no século XX podem ser mencionadas: João Cabral de Melo Neto traduziu poemas catalães, na época em que trabalhou como diplomata na Espanha. Stella Leonardos publicaria em 1969 pela Monfort uma Antologia da poesia catalã contemporânea. Em 2007, a antologia 12 poetas catalães, traduzidos pelo brasileiro Ronald Polito e pelo catalão Josep Domènech Ponsatí, renovaria o contato do Brasil com essa literatura específica de Espanha.

Em 1996, a hoje extinta revista Poesia Sempre, da Fundação Biblioteca Nacional, dedicaria seu sétimo número à poesia de Espanha, apresentando um longo dossiê de quase duzentas páginas, dividido em duas seções. A primeira, “Fundadores e/ou seguidores das grandes linhas”, incluía Antonio Machado, Federico García Lorca, Gerardo Diego, Jorge Guillén, Juan Ramón Jimenez, Luis Cernuda, Miguel Hernández, Pedro Salinas, Rafael Alberti e Vicente Aleixandre. Desses, apenas Alberti, que somente morreria em 1999 aos 96 anos, ainda vivia. A segunda parte, “Poesia Espanhola Contemporânea”, contava com trinta e oito autores, a maioria viva, entre eles Ángel Crespo, Antonio Gamoneda, Concha García, Jaime Gil de Biedma, José Ángel Valente e Leopoldo María Panero. O dossiê era encerrado por dois ensaios, de Miguel Casado e Juan Carlos Suñén, também incluídos na seleção dos contemporâneos.

A principal exceção a esse panorama de escassez editorial continua sendo Federico García Lorca, cuja obra poética e a teatral são há décadas celebradas no Brasil, tanto pelos escritores quanto pelo público. Essa glória é, contudo, póstuma. Em artigo de 1937 sobre Lorca e sua execução pelos franquistas, Carlos Drummond de Andrade apontava que ele era “desconhecido pelo público” brasileiro 5. A situação mudaria nas décadas seguintes, com o sucesso de suas peças nos palcos brasileiros, e levaria à primeira publicação de um de seus livros de poesia, Romanceiro gitano, em 1957 por Afonso Félix de Sousa 6, e suas obras completas pela Nova Aguilar na década de 1970 reunindo traduções de, entre outros nomes, o próprio Drummond, Cecília Meireles, Oscar Mendes, Alphonsus de Guimarães e Stella Leonardos.

Outros poetas dessa época, como Antonio Machado, apesar de sua grande importância, nunca tiveram, ao contrário de Lorca, sua poesia completa publicada neste país. Um dos exemplos dessa escassez tradutória e literária está no fato de que apenas em 2011 um autor fundamental como Luis Cernuda teve uma antologia publicada no Brasil: Como eu, como todos (Lumme Editor), com tradução de Ronald Polito (poeta responsável por diversas traduções do espanhol e do catalão) e do escritor catalão Josep Domènech Ponsatí.

Polito também foi responsável pela primeira tradução de um livro de Joan Brossa no Brasil, Poemas civis, traduzido com o poeta Sérgio Alcides (Sette Letras, 1998). O autor ainda era vivo quando esse livro foi publicado neste país. O tradutor voltaria a Brossa com Sumário astral e outros poemas (Amauta, 2006), 99 poemas (Annablume, 2009, antologia organizada com Victor da Rosa) e Escutem este silêncio (Lumme, 2011).

Entre os autores espanhóis que Polito introduziu no país, estão Maria-Mercè Marçal, de que publicou uma Antologia em 2017 (Lumme Editor); Joan Salvat-Papasseit, com a antologia Nada é mesquinho, o escambau (Demônio Negro, 2009); Benito del Pliego, com Palingenesia (Lumme, 2018); Carles Camps Mundó e a antologia Instante após o tempo (Dobra, 2015); J. V. Foix em Feira de relâmpagos, traduzido com Domènch Ponsatí (Demônio Negro, 2009), Narcís Comadira e seu Desdesejo (Lamparina, 2005), Salvador Espriu com a antologia Quatorze (Travessa dos Editores, 2002), entre outros, sem mencionar os prosadores, como Maria Ángels Anglada e seu romance O violino de Auschwitz, ou o clássico Ramon Llull.

Maria-Mercè Marçal recebeu nova tradução no Brasil, Desglaç/Degelo, por Meritxell Hernando Marsal e Beatriz Regina Guimarães Barbosa, publicada pela Urutau em 2019.

Com o propósito de trazer um panorama da poesia de Espanha, Fábio Aristimunho Vargas organizou e traduziu uma antologia, Das origens à Guerra Civil, publicada pela Hedra em 2009 em quatro volumes: Poesia galega, Poesia catalã, Poesia basca e Poesia espanhola, atendendo a esses quatro idiomas oficiais do país. No entanto, o recorte temporal, que parte do século XII e chega ao XX, abrangeu apenas autores em domínio público, deixando de lado escritores mais recentes.

Faltam ao país, por conseguinte, esforços editoriais da envergadura destes que foram lançados no mercado português: a extensa Antologia da poesia espanhola contemporânea, organizada e traduzida por José Bento, publicada em 1985 pela Assírio e Alvim com apoio da Dirección General del Libro y Bibliotecas do Ministério de Cultura espanhol. A obra, com 856 páginas, seguia uma ordem cronológica por nascimento dos autores: começava com Miguel de Unamuno (1864-1936) e terminava com Luis Antonio de Villena (1951).

A essa antologia, seguiu-se outra, também notável, que teve como propósito representar uma atualização dessa primeira, com autores mais novos: Poesia espanhola de agora, traduzida por Joaquim Manuel Magalhães, em dois volumes publicados pela Relógio d’Água, em 1997. Como vantagem em relação à de José Bento, esta edição foi bilíngue. No posfácio, o poeta salientou como “o panorama” da poesia espanhola “diversifica-se e complica-se de uma maneira extraordinária” no final dos anos 1980 e início da década de 1990.

A grande maioria desses autores, no entanto, continua sem publicação de seus livros no Brasil, como José Ángel Cilleruelo, embora este poeta já tenha sido traduzido em Portugal por Joaquim Manuel Magalhães em edição da Averno de 2004.

Leopoldo María Panero, falecido em 2014, teve seu Last river together traduzido por Pedro Spigolon e publicado no Brasil após sua morte (Urutau, 2019). Seu irmão, Juan Luis Panero (presente naquelas duas antologias portuguesas), bem como seu pai, Leopoldo Panero, também já mortos, ainda não receberam a mesma sorte.

O escritor, crítico e artista plástico Adolfo Montejo Navas, por morar no Brasil, é uma feliz exceção e tem publicado sua obra literária neste país em edições bilíngues. No entanto, autores contemporâneos como Francisco Alba, autor de Masa crítica (publicado pela Vaso Roto em 2013, destacado pelo crítico brasileiro Pádua Fernandes 7) continuam sendo negligenciados pelo mercado editorial brasileiro.

Jesús Aguado organizou uma das antologias recentes da poesia espanhola, Fugitivos: Antología de la poesía española contemporánea (Madrid: FCE, 2016), cuja autora mais jovem é a premiada Elena Medel, nascida em 1985. No prólogo, Aguado escreveu que “La poesía se lleva mal, o debería llevarse mal, con las instituciones carcelarias”, entre elas a própria literatura e o dinheiro. Que o mercado editorial brasileiro deixe de exercer esse papel e libere a publicação dessa parcela tão pujante da arte da Espanha.

1 Poeta, doutor em Letras pela USP, gerente de Literatura da Somos Educação.

2 Acesso à pesquisa completa em http://cbl.org.br/site/wp-content/uploads/2020/07/S%C3%89RIE-HIST%C3%93RICA_PCR2019.pdf. Acesso em 19 jul. 2020.

3 Ver https://www.publishnews.com.br/materias/2020/05/15/podemos-afirmar-que-a-tendencia-e-que-o-livro-digital-tenha-mais-peso-nos-nossos-habitos-de-leitura. Acesso em 19 jul. 2020.

4 A chamada “Castilho-Azevedo-P. Chagas”, tendo em vista seus três autores, Visconde de Castilho, Visconde de Azevedo e Pinheiro Chagas (Silvia Cobelo, “Os tradutores de Quixote publicados no Brasil”, tradução em revista 2010/1, p. 01-36, https://www.maxwell.vrac.puc-rio.br/16557/16557.PDFXXvmi. Acesso em 19 jul. 2020).

5 Montemezzo, Luciana. O assassinato de García Lorca e suas repercussões no Brasil. Aletria, v. 19, n. 2, jan./jun. 2009, p. 274. Disponível em http://www.periodicos.letras.ufmg.br/index.php/aletria/article/view/1486/1581. Acesso em 19 jul. 2020.]

6 Quintela, Antón Corbacho. García Lorca no Brasil, 2007, https://vermelho.org.br/2012/01/11/garcia-lorca-na-praca-na-politica-e-na-alma-do-brasileiro/. Acesso em 19. jul. 2020.

7 Fernandes, Pádua. Poesia política: Cernuda, Brossa, Francisco Alba. O palco e o mundo, 28 ago. 2013. Disponível em: http://opalcoeomundo.blogspot.com/2013/08/poesia-politica-cernuda-brossa-e.html. Acesso em 19 jul. 2020.

 

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