Há leitores brasileiros para as letras da Espanha?

Valeria De Marco

Há leitores brasileiros para as letras da Espanha?

Nos últimos anos, a atividade editorial no Brasil acompanha o movimento de grande parte dos países do ocidente ao seguir o compasso determinado pelos grandes grupos empresariais. Estes, também no Brasil, compraram editoras e, com frequência, trabalham lançando obras atuais de êxito em traduções de diversas línguas e selecionam do catálogo adquirido títulos de vida longa para novas edições em seus selos. Grande parte do catálogo restante ora é negociada com empresas locais, ora desaparece, sem que se possa avaliar ao certo se e quando voltarão à circulação.

Nesse cenário, o portal New Spanish Books Brasil oferece uma oportunidade para que as empresas pequenas ou as sessões brasileiras de grupos editoriais transnacionais tenham uma perspectiva para ampliar ou introduzir em seus catálogos obras espanholas que possam superar as diretrizes editoriais mais constantes na escolha de títulos, sejam as que se restringem aos clássicos, como livros de Garcia Lorca, ou aos best-sellers, como os de Pérez Reverte, ou ainda a nichos dos círculos de influência da universidade, como Vila Matas.

Atuar nesse contexto pode ser uma meta estratégica promissora se forem considerados os laços históricos e culturais da relação entre Brasil e Espanha, às vezes direta e às vezes indireta. Um certo tronco comum fundou-se na era das navegações protagonizadas por Espanha e Portugal. As duas metrópoles desenvolveram ações colonizadoras distintas, disputaram o domínio sobre o novo mundo e definiram a cartografia territorial e linguística da América Latina, não sem acirrados conflitos. Eles tiveram características também diferentes decorrentes do grau de desenvolvimento das nações indígenas então subjugadas bem como de investidas de outros estados, caso da Inglaterra, da Holanda e da França nas margens de todo o continente, e ainda das políticas diversas de escravização de negros e índios. Mas é inegável que sobre solos tão convulsos impôs-se o cristianismo como lastro cultural e político, diferenciando a América Latina da América do Norte, constituindo o que nos últimos tempos vem sendo designado por Ibero-américa.

Durante o século XIX, com a constituição das nações independentes, produtores culturais da América Latina, ombreados com os das antigas metrópoles, viveram na órbita da hegemonia de Paris. Ali se encontravam intelectuais e escritores; por ali passavam empreendedores do jornalismo e da edição; contatos, diálogos, imprensa e livros saltaram a barreira das línguas da península ibérica e da América Latina. Já, nas três primeiras décadas do século XX, a inteligência ampliou seus pontos de encontro, incorporando especialmente Madri e Buenos Aires e, mais esporadicamente, Rio de Janeiro. Mas é preciso lembrar um fluxo paralelo a esse trânsito representado pelo significativo processo de imigração, ainda que com grande variação quantitativa, de portugueses, espanhóis e italianos no caso do Brasil e da Argentina, a partir do final do século XIX. Teriam sido eles o começo de uma comunidade de leitores que estimularam traduções ao português de títulos ou autores espanhóis secundários na história literária? Seriam eles os leitores de O Chapéu de três bicos, de Pedro de Alarcón, ou de Sangue e areia, título de Blasco Ibáñez, que de livro, passou à novela de rádio e à telenovela?

Essas redes de relações culturais nem sempre visíveis, tiveram muita intensidade durante a Guerra da Espanha. Grandes escritores brasileiros, como Drummond de Andrade, Manuel Bandeira ou Jorge Amado puseram em circulação o nome de Garcia Lorca. E a derrota dos republicanos em 1939 trouxe enorme contingente de exilados para a América Latina, tendo sido boa parte deles responsável por criação ou consolidação de editoras e revistas bem como por impulsos em instituições. Como nota, vale lembrar que um deles fundou a área de língua e literatura espanhola na Universidade de São Paulo. No entanto, tais afinidades artísticas e intelectuais nas décadas de 1930 e 40 tinha um contraponto na colaboração política e cultural dos estados autoritários consolidados em Portugal, Espanha e Brasil, materializada em estabelecimento de censura, de fomento aos seus órgãos de propaganda e de caça aos opositores. O internacionalismo da arte enfrentou-se com a força dos nacionalismos, promovendo o distanciamento ou prejudicando a ampliação de seu público. Sobre esse contexto desfavorável incidiu ainda, depois da II Guerra Mundial, a avalanche homogeneizadora dos produtos culturais dos Estados Unidos que inundou o continente na era das comunicações de massa. Por outro lado, nesse cenário, a circulação literária do “boom” hispano-americano estendeu-se muito e criou raízes nos países da Ibero-américa.

Se no período da ditadura militar Brasil, circulou a Espanha dos extremos – de um lado, Marcelino, pão e vinho e, de outro, versos de Marcos Ana ou romances de Semprún- a abertura política brasileira, como em outros casos, colocou a transição espanhola, os pactos de Moncloa e a “movida madrileña” na mídia. E novamente, nota-se no Brasil tentativas editorias de explorar a diversidade da produção espanhola ainda tão pouco conhecida pelo público brasileiro mais amplo. De modo geral, para esse público, a referência à literatura moderna espanhola ficou congelada no tempo, nas imagens de Garcia Lorca. Sem dúvida são imagens poderosas que se propagaram, não só através da leitura, mas também através do cinema, do teatro ou da música, e atravessaram quase um século transportando símbolos de luta pela liberdade política, social e artística para tantos cantos do mundo. No entanto, nenhuma tradição literária nem tampouco os leitores se nutrem apenas de escritores universais. Talvez, observando movimentos do leitor brasileiro, seja possível abrir a ele rotas da literatura espanhola desses oitenta anos que o distanciam de Lorca, rotas para conhecer obras herdeiras daquela época que interpretam o tempo presente de lá, de cá e de outros territórios.

Como em todos os países há, na Espanha, uma farta quantidade de autores ou de títulos que respondem ao público que busca no livro o entretenimento, o passatempo; o leitor que se acostumou ao ritmo das séries produzidas para as telas seja do cinema, da TV ou do celular. Nessa linha, há obras de enredos cheios de ação ou as que adotam o perfil dos clássicos policiais. Porém, na esteira desse modelo, há obras que combinam a isca de desvendar um crime, mas transformam a composição da trama em descobrir os motivos do próprio impulso detetivesco. Assim, compõe-se uma obra que tanto atrai quem busca o entretenimento como quem lê procurando compreender um comportamento humano e sempre recorrente pela curiosidade de desvendar o mal, o lado monstruoso que pode vir à tona em qualquer um de nós. É a narrativa policial que leva o leitor a perguntar-se por si mesmo, por sua atração por esse tipo de história, como faz Rubem Fonseca em alguns de seus textos. Veja-se um título dos últimos meses que não está inscrito neste ano: El dolor de los demás, de Miguel Ángel Hernández.

Outra produção editorial de muito interesse é a que dá ao livro a dimensão de objeto artístico, seja o romance gráfico, seja a história destinada ao público infantil e juvenil ou o livro álbum, cujo destinatário não tem idade. Independentemente do tema tratado nessas obras, boa parte confeccionada por editoras catalãs, criou-se e amplia-se um segmento do público leitor.

Um fenômeno singular da produção literária espanhola dos últimos oitenta anos é o grande número de escritoras. Desde os primeiros anos do regime franquista, as mulheres entraram com força na cena literária e no mercado editorial; conquistaram prêmios literários de prestígio e reconhecimento da crítica e de historiadores. A produção dessas escritoras é tão significativa que permitiria a qualquer leitor acesso ao conhecimento da sociedade espanhola acompanhando-as ao longo das décadas passadas. Dentre elas, no Brasil, foram traduzidas poucas obras. E cabe destacar que boa parte delas ocupam-se de questões de gênero vividas lá e cá, muitas transformadas em reivindicações dos movimentos feministas.

Um forte veio dos últimos quarenta anos na literatura espanhola, este mais conhecido pelos editores da América Latina, é o grande número de obras e autores dedicados a reconstruir eventos da Guerra Civil Espanhola e de suas consequências. Há romances, livros de memórias, autobiografias, testemunhos, textos de autoficção, romances gráficos. No Brasil, desse filão, alguns autores tiveram uma ou outra obra publicada: Vila Matas, Javier Cercas, Antônio Munhoz Molina, Jorge Semprún, Antonio Altarriba/Kim, autores de um romance gráfico. No entanto, obras que tratam dos mesmos eventos escritas pelos exilados republicanos de 1939, traduzidas a outras línguas e com reedições, não mereceram ainda a atenção dos editores brasileiros, caso, por exemplo, de alguns títulos de Ramón Sender, Francisco Ayala e Max Aub, cuja tradução brasileira de Crimes exemplares tem sido reeditada com frequência.

Cabe alertar a editores que procuram construir um catálogo para leitores exigentes e de longa duração a existência de dois autores deste século XXI cuja obra tem vínculos com essa tendência de revisitar o passado, mas portadores de um talento que supera os demais. Um deles é Alberto Méndez, autor de Los girasoles ciegos. O texto está na 26ª. edição espanhola, foi adaptado ao cinema, ganhou uma edição ilustrada em 2017 e sua tradução portuguesa está esgotada. O escritor ficará como autor desse único texto, o mais denso escrito sobre a catástrofe da guerra civil, sem qualquer concessão a maniqueísmos. O outro talento excepcional é Rafael Chirbes, seguramente um autor que tem a dimensão da universalidade, pois foi capaz de representar em suas obras o mundo contemporâneo, partindo de um ângulo que é local e transnacional: como viveram e vivem hoje os jovens que lutaram por utopias em 1968? Dessa perspectiva e com lucidez, que por momentos é cruel como todos os grandes romancistas, Chirbes revela ao leitor a última a consolidação precária da Comunidade Europeia e a grande crise econômica, social e política iniciada em 2008. Dadas as características da crítica espanhola, o autor foi reconhecido antes no exterior. Rapidamente suas obras eram traduzidas ao alemão, francês, italiano e inglês. Na Alemanha, país com o melhor curso secundário da comunidade europeia, nos planos de estudo do último ano do curso anterior ao ingresso na universidade, desde 2013, um romance de Chirbes é leitura obrigatória para os alunos na disciplina voltada à cultura hispânica. Em qualquer prateleira destinada à compreensão do mundo contemporâneo do ocidente, ele deveria estar ao lado de Philip Roth, W. G. Sebald, J.M. Coetzee, Borges, Kafka, Guimarães Rosa e alguns outros.

Tendo em conta hábitos do leitor brasileiro, é importante ainda salientar que há bons contistas espanhóis publicados. No mercado, com frequência passam desapercebidos, pois a tradição da crítica espanhola não valoriza essa produção com atenção equivalente a ela concedida em muitos países do ocidente. Mas isso não pode ser medida do interesse que o conto espanhol possa ter no Brasil.

Para terminar este mapa da produção literária espanhola contemporânea, cabe uma observação sobre a poesia. Este é um gênero na Espanha, como no Brasil, para um público reduzido. Certamente, editores dispostos a explorar esse nicho encontram bons autores e vários que exploram na poesia, digamos, a linguagem “coloquial” cujo andamento é atualmente procurado pelo leitor brasileiro.

Valeria De Marco (Universidade de São Paulo/CNPq)